Mais de 500 famílias de 12 comunidades no Amazonas recebem atendimento e informações levadas pelo Barco Solidariedade

Aos 49 anos, Lourdes conta nos dedos os problemas de saúde que lhe fizeram sair da pequena comunidade de São José 2, no Amazonas, em busca de tratamento médico. Desde que a pandemia de COVID-19 levou o estado ao colapso no sistema de saúde, ela busca tratar o diabetes como pode na pequena comunidade de 30 famílias e mais de duas horas de distância do centro urbano mais próximo, navegando nas águas do Rio Solimões. Quando o Barco Solidariedade chegou a São José 2, no último dia 3 de agosto, uma ferida no pé a impediu de se levantar para ver com os próprios olhos a ajuda que tanto esperava. Mas o ferimento não a impediu de receber a equipe médica da Visão Mundial e da Igreja Presbiteriana de Manaus para examiná-la em sua própria casa.

“Já faz 25 anos que moro aqui nessa ilha. É muito bom morar aqui, o único porém é com a saúde da gente. Não tem como levar pro hospital pra gente ser cuidado. Se a gente não tiver um recurso, só Deus mesmo na vida da gente”, conta Lourdes. “Quando é um caso mais grave, a gente precisa pegar o barco às 6h da manhã, pra chegar às 10h30 em Manacapuru e ir pegar fila pra agendar. Depois disso, leva mais de três meses pra gente ser atendida”, ressalta. Lourdes também conta que, há mais de dois anos, o marido foi consultado em um barco hospital em uma comunidade próxima e, desde então, ela orava para que um dia o atendimento chegasse também a São José 2. “Eu orava e pedia a Deus que um dia essa lancha chegasse em nossa comunidade. E agora vocês estão aqui. Estou feliz, feliz demais mesmo. Tenho fé em Deus que da próxima vez que vocês vierem, eu já estarei boa do meu pé.”

Impossibilitada de caminhar, Lourdes recebeu atendimento médico em casa

São José 2 foi uma das 12 comunidades atendidas pelo Barco Solidariedade entre os dias 2 e 7 de agosto. Em situações normais, o barco, mantido pela Visão Mundial e a Igreja Presbiteriana de Manaus, conta com atendimento médico e odontológico nas instalações, recebendo o máximo de pacientes possível. Com a pandemia, os atendimentos no barco precisaram ser limitados a urgências e as viagens passaram a incluir distribuição de cestas básicas, kits de higiene e proteção pessoal, kits de higiene bucal e palestras sobre COVID-19, higiene bucal e prevenção à violência contra mulheres, crianças e adolescentes. Esta foi a segunda viagem feita pelo barco hospital no Amazonas desde o início da pandemia, atendendo mais de 500 famílias em cada viagem.

“As comunidades ribeirinhas foram muito afetadas pela pandemia. Já eram famílias que viviam em vulnerabilidade e, com a necessidade de isolamento social, muitas acabaram perdendo seus meios de subsistência. São famílias que vivem da agricultura e da pesca e que não conseguiram mais escoar sua produção para os centros urbanos. Por este motivo, além do suporte à saúde, estamos distribuindo cestas básicas, para tentar amenizar a situação em que vivem”, declara a coordenadora da Visão Mundial para o Amazonas, Maria Lucinete Bezerra. “Por medidas de proteção e seguindo às recomendações das autoridades de saúde, limitamos os atendimentos médicos e odontológicos dentro do barco apenas a urgências, como quando há necessidade de algum tratamento bucal ou alguma intervenção médica, por exemplo. Fora isso, estamos realizando atendimentos em domicílio e reforçando os cuidados e as informações durante as palestras”, completa.

Mais de 500 famílias receberam cestas básicas, kits de higiene e proteção contra a COVID-19 e kits de higiene bucal durante a segunda viagem do Barco Solidariedade

Embora a COVID-19 tenha feito milhares de vítimas no Amazonas desde o início da pandemia, nenhuma pessoa atendida na segunda viagem do Barco Solidariedade apresentava os sintomas. Algumas já haviam contraído a doença e se recuperado, e raros foram os casos confirmados por meio de exames laboratoriais. Mesmo com o medo do novo coronavírus, nas comunidades é raro o uso de máscaras de proteção e o isolamento social se mostra um grande desafio. E, apesar de estarem sobre a maior bacia hidrográfica do mundo, a água que a população ribeirinha utiliza raramente é própria para consumo, o que gera problemas constantes de saúde, para além da pandemia.

“Nas épocas de chuva, temos muitos casos de gripe e, quando o rio seca, são mais comuns as doenças de pele e verminoses, por causa da qualidade da água que é consumida nas comunidades. Também temos visto nos últimos anos um aumento nos casos de doenças crônicas que eram típicas dos ambientes urbanos, como hipertensão e diabetes”, explica o médico Rogelio Alejandro Sosa, que há dois anos trabalha integralmente nos barcos ambulatoriais no Amazonas. “Nessas comunidades mais distantes, os atendimentos de saúde são menos recorrentes. Com sorte, essas comunidades recebem visitas médicas oferecidas pelo sistema público de saúde uma ou duas vezes por ano. E, em muitos casos, quando conseguem esse atendimento, acabam sem acesso aos medicamentos indicados, porque não há um posto de saúde nas comunidades e muitos não dispõem de recursos para comprar os medicamentos na cidade. Dessa forma, acabam não fazendo os tratamentos”, completa.

Célia recebeu cesta básica e kits de proteção e higiene pessoal para a família, além de kits de higiene bucal e Caixas de Ternura para as três filhas

Outro problema recorrente nas comunidades é relacionado à saúde bucal. Muitas crianças e adolescentes acabam perdendo dentes permanentes em função de cáries e problemas não tratados. Por este motivo, também foram distribuídas escovas, cremes e fios dentais, e todas as famílias que recebem os kits passam por uma palestra sobre saúde e higiene bucal. Celia, de 29 anos, recebeu as doações para as filhas de 9, 6 e 3 anos. Ela vive com as filhas e o esposo em Santa Luzia, uma comunidade com menos de 20 famílias residentes. Como toda a comunidade, a família tenta sobreviver com o que consegue na agricultura.

“Na época da seca a gente planta e, conforme vai enchendo, a gente vai colhendo. Pra gente mudou tudo com a pandemia. E se a gente não tem dinheiro, a gente não tem de onde tirar pra ter alimento para nossas filhas”, conta Célia. Em momentos de dificuldade, ter o que comer é a prioridade número um de toda família ribeirinha. Nesses tempos, acabam sendo deixados de lado os cuidados com a higiene bucal e o entretenimento das crianças. Por este motivo, a Visão Mundial também entregou a todas as crianças das comunidades a Caixa de Ternura, com materiais didáticos e educativos. Na casa de Célia, as três filhas receberam com alegria o material. “É uma alegria, é uma honra receber vocês na nossa comunidade, trazendo essa ajuda pra gente. Vocês chegaram na hora e no momento certo, mandados por Deus, porque Deus sabe a necessidade de cada família. Essa ajuda chegou no momento certo pra nós.”

Esta foi a segunda de três viagens garantidas ao Barco Solidariedade durante a pandemia. A próxima viagem está prevista para setembro, e também buscará atender entre 500 e 600 famílias ribeirinhas no Amazonas.

Confira no vídeo a seguir um pouco mais sobre a segunda viagem do Barco Solidariedade durante a pandemia de COVID-19:

Texto e produção de reportagem: Paola Bello / Visão Mundial Brasil
Imagens: Álvaro Júnior e Thais Simões / Visão Mundial Brasil
Edição de vídeo: Víctor Martínez / World Vision