Visão Mundial e parceiros enfrentam colapso causado pela COVID-19 para garantir alimentação e prevenção a crianças e famílias mais vulneráveis no estado do Amazonas

O estado do Amazonas, na região Norte do Brasil, apresenta hoje dados calamitosos. Com pouco menos de 4 milhões de habitantes, o estado é o 13º em tamanho de população, mas já saltou para a quinta posição em número total de mortos pela COVID-19 no país. O aumento incontrolável no número de casos tem levado os leitos de hospital à ocupação máxima e os sistemas de saúde e funerários ao colapso. Mesmo em meio à dor e ao desespero causados pela incerteza do amanhã, uma valente equipe de funcionários da Visão Mundial e voluntários de organizações parceiras lutam contra o tempo para levar alimentos, itens de higiene e um pouco de esperança às populações em extrema vulnerabilidade.

Até a noite desta segunda-feira, 11 de maio, o Brasil registrava 168.331 casos confirmados e 11.519 mortes pela COVID-19. Desses, 12.919 confirmações e 1.035 óbitos foram registrados no Amazonas. Na capital, Manaus, está a situação mais crítica: são mais de 7,2 mil casos confirmados da doença, com o número de óbitos se aproximando dos 700. Mesmo com uma curva acentuada no aumento no número de casos, o governo do estado enfrenta resistência nas medidas de distanciamento social e que mantêm fechados estabelecimentos comerciais e serviços não essenciais até a próxima quarta-feira (13).

“Falta sensibilização por parte da população. Uma parte contribui, a outra, não”, afirma Rosa Maria da Silva Nunes, assistente social na Igreja Presbiteriana de Manaus, parceira da Visão Mundial na capital do Amazonas. “É muito fácil falar para ficar em casa quando a pessoa tem de onde tirar o sustento, está com a geladeira abastecida e internet para trabalhar em home office. Mas a maioria das pessoas aqui precisa se deslocar, trabalha como autônomo, é diarista, desempregado. Este é o cenário em que estamos vivendo, com as pessoas tendo que escolher entre morrer de COVID-19 ou morrer de fome.”

Com cerca de 10 mil membros, a Igreja Presbiteriana precisou reforçar as equipes e o time de voluntários, que conta com médicos, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais. Atualmente, são 150 pessoas diagnosticadas com a doença que recebem atenção direta da equipe ministerial. “São pessoas da igreja, mas também há familiares ou conhecidos dos membros da igreja. Nesse momento, não podemos focar apenas nos nossos. Mas nosso trabalho é limitado, porque não temos recursos humanos suficientes”, ressalta Rosa.

Por meio de doações e recursos próprios, a Visão Mundial e a Igreja Presbiteriana têm tentado levar cestas básicas a Manaus e a cidades do interior. “Apenas no projeto Juntos pelas Crianças, temos de 1.600 crianças e adolescentes em três municípios. Em Manaus, tenho mais de 600 morando nas periferias. Todos são filhos de pais autônomos, que agora estão desempregados, e que precisam sair de casa para tentar achar um meio de conseguir alimentar a famílias. As cestas chegaram e, logo nas primeiras entregas, uma criança abraçou a cesta quando o pai chegou em casa com ela. Era o único alimento que tinha na casa. Você sabe o que é uma criança abraçar um pacote de comida?”, ressalta Rosa.

Resposta à emergência como prioridade

Com o anúncio da pandemia e com a chegada do vírus ao Brasil, todas as operações da Visão Mundial Brasil passaram a ter como prioridade máxima a resposta humanitária à emergência. O Brasil está entre os 17 países da primeira fase da resposta global da emergência da World Vision, que tomou como prioridade os locais onde as necessidades humanas devem crescer exponencialmente, como os que estão em contextos de conflitos e onde há restrições de circulação de pessoas, bens e serviços. Assim, a primeira fase, que guiou as atividades nos meses de março e abril, tomou como foco de resposta de emergência locais onde já existiam situações de vulnerabilidade e de fragilidade, colocando crianças em maior risco – contextos afetados por conflitos, favelas, refugiados e pessoas em deslocamento.

Visão Mundial distribui Caixas de Ternura a crianças venezuelanas em Manaus (Foto: Aline Navegantes / Divulgação Visão Mundial)

No Brasil, grande parte dessa resposta também envolveu o contingente de migrantes venezuelanos, prioritariamente nos estados do Amazonas, Roraima e São Paulo. “Antes da pandemia, as operações no país eram focadas em projetos de proteção e programas de suporte em todo o país. Agora, tudo está direcionado para atuar na resposta à emergência, buscando ser parte da solução”, explica o diretor de resposta à emergências da Visão Mundial Brasil, Luis Enrique Corzo García. “Nesse sentido, adaptamos o trabalho que estávamos fazendo com migrantes venezuelanos, que acabam em situação de maior vulnerabilidade. Fora do próprio país, essas pessoas acabam com menos possibilidade de acesso a sérvios básicos, como saúde, educação e proteção social”, completa.

No total, 84 pessoas integram a equipe que trabalha diretamente com migrantes venezuelanos nos três estados, ao lado de 16 organizações parceiras. “Começamos a operação basicamente com a ideia de reduzir a propagação do vírus. Para isso, providenciamos soluções de WASH (água, saneamento e higiene), incluindo o fornecimento de insumos de limpeza e de saúde, e materiais educativos, com informações sobre prevenção”, explica o diretor.

Outro desafio é que parte dos beneficiários nesse projeto são migrantes indígenas. “Os desafios iniciam desde a comunicação, porque muitos falam apenas as línguas indígenas” explica. Somado a isso, ainda há muitos casos, entre indígenas e não indígenas, de migrantes que não possuem acesso a meios de comunicação a distância, o que exige a presença física das equipes nas ações. “Quando podemos fazer o atendimento e a assistência de maneira virtual, priorizamos esse meio. Mas há muitas pessoas sem acesso a telefone, a internet, a um computador, e, nessas situações, é muito difícil termos uma solução que não seja o atendimento presencial. Nesses casos, seguimos um protocolo bastante rígido de medidas de segurança e sanitárias, para reduzir tanto os riscos de contrairmos a doença quanto também de acabarmos contaminando as pessoas nos espaços onde estamos implementando a resposta.”

Risco eminente

Em todo o Brasil, dia após dia, o medo da COVID-19 se transforma em aumento de casos que migram dos grandes centros e ganham as regiões mais longínquas. De acordo com os últimos dados do Ministério de Saúde, quase 90% de todos os municípios do Amazonas já possuem casos confirmados da doença, e mais de 40% dos registros estão nas cidades do interior. Com o ritmo acelerado de propagação da pandemia, as previsões são assustadoras: em muito menos tempo, todo o estado pode viver o caos que hoje é visto na capital, Manaus.

Mas a rapidez com que o vírus avança pelo interior não é a mesma com que é levada ajuda. Há alguns anos, a Igreja Presbiteriana de Manaus tem sido uma das grandes frentes de atendimento social e de saúde a comunidades ribeirinhas e a municípios isolados no Amazonas. São locais onde se chega apenas de barco, em trajetos que podem exigir dias de navegação pelos rios do estado. “Usamos barcos ambulatoriais, sendo um deles em comodato com a Visão Mundial. Cada barco chega a atender 14 mil pessoas em um ano, em atendimentos sociais e de saúde. É um trabalho de extrema importância, mas que, com a pandemia, está parado. Não podemos navegar, o tráfego está fechado. E, com isso, vemos de longe o problema social se agravando”, lamenta o pastor Francisco Chaves dos Santos.

“A primeira consequência dessa situação é a dor e o sofrimento das pessoas. Estamos vendo os óbitos aumentarem, há muito sofrimento, muita dor e muita lágrima. A segunda consequência é a fome. Estamos vendo pessoas passando por necessidades como nunca vimos antes”, destaca o pastor. Juntos, Visão Mundial e voluntários da Igreja Presbiteriana têm, mesmo que aos poucos, buscado garantir cestas básicas, doações de kits de higiene e limpeza, além de atendimentos médicos, psicológicos e sociais. “Nós nunca mais seremos os mesmos depois dessa pandemia. Meu desejo é que sejamos pessoas melhores e que, logo, possamos dizer que fizemos a diferença por meio do amor. E, nesse sentido, a parceria com a Visão Mundial é fundamental, tanto para atender diretamente quando para pensar juntos sobre como cuidar das crianças com segurança e cuidado”, completa o pastor.

Crianças atendidas pela Visão Mundial e pela Igreja Presbiteriana de Manaus receberam materiais educativos durante a pandemia de COVID-19 (Foto: Aline Navegantes / Divulgação Visão Mundial)

Esperança e resiliência

Mesmo em pequenas remessas, a ajuda da Visão Mundial e parceiros têm chegado ao Amazonas. Até agora, foram distribuídos no estado 150 cestas básicas, 500 Caixas de Ternura e 1.500 kits de limpeza, com álcool, sabão e desinfetante. A expectativa é que, em pouco tempo, o número de doações aumentem significativamente, para conseguir atender, ao menos em parte, as famílias que passam por situações mais críticas. “Nosso desafio é ter recurso para atender a todo mundo que precisa. Às vezes, tem 1.400 crianças cadastradas, mas conseguimos mandar apenas 200 Caixas de Ternura. Ou parceiros com 170 famílias, mas conseguimos movimentar apenas 20 cestas. É um pouco angustiante, a gente está trabalhando com pessoas passando fome, sem ter de onde tirar. Acabamos tendo que priorizar quem está em situação mais crítica”, explica a articuladora da Visão Mundial no Amazonas, Maria Lucinete Trindade Bezerra.

Além da Igreja Presbiteriana de Manaus, outros sete parceiros trabalham com a Visão Mundial no estado. Com a chegada da pandemia, as equipes e os projetos precisaram ser repensados. Inicialmente, dois seriam desenvolvidos em 2019 – um com refugiados venezuelanos e outro com apoio a organizações locais no tema da proteção da infância. Hoje, todos os esforços têm sido em responder à emergência da COVID-19. Mesmo com as mudanças, a equipe reduzida depende de parceiros e voluntários para garantir que os esforços cheguem a quem mais precisa. Equipes da Visão Mundial Brasil também têm se deslocado no território para mapear pessoas em situação de maior vulnerabilidade. “Na minha equipe, era só eu. Agora, estou com mais uma colega, que era de outro projeto, mas que agora também está na emergência da COVID-19. Em todas as nossas ações, dependemos de voluntários. A gente acaba agora sem mais muito horário para trabalhar. Também temos que lidar com o medo, porque, dependendo do local, os voluntários não têm coragem de chegar. A gente precisa garantir que todos estejam utilizando equipamento de proteção individual, que tenham meios de chegar até os locais, com o desafio do deslocamento, com os bloqueios que as cidades têm feito na tentativa de conter o vírus.”

Mesmo com todas as dificuldades, o trabalho da Visão Mundial tem feito a diferença no Amazonas. “Minha maior recompensa é o sorriso de uma criança quando recebe um material, é a lágrima de um pai ou de uma mãe que já não tinham alimento quando recebem uma cesta básica com produtos de qualidade”, conta Lucinete. “Eu me emociono só de saber que, ao menos naquela semana, aquela família vai poder tomar café, vai ter um feijão pra comer. Isso vale a pena. É o que me motiva a fazer tudo e novo. É o que me motiva a seguir em frente.”