20 de Junho | Dia Mundial do Refugiado

Por World Vision Latinoamerica y Caribe

O risco de pobreza e exploração das crianças migrantes venezuelanas multiplica-se à medida que milhares de famílias que fugiram da crise econômica e política da Venezuela procuram um lugar seguro para viver, durante a pandemia causada pela COVID-19.

A América Latina é o novo epicentro do surto global nos países em desenvolvimento com mais de 1,3 milhão de casos confirmados em toda a região e um quinto dos casos globais. Neste contexto, estima-se que até 1.000 pessoas por dia têm tentado regressar à Venezuela desde o início das medidas de isolamento, em meados de março, apesar dos governos terem fechado oficialmente as fronteiras para impedir a propagação do vírus.

A perda de rendimentos nos países de acolhimento, despejo devido a incapacidade de pagar pela habitação, xenofobia, discriminação e falta de acesso a serviços de saúde e higiene básica são as principais razões pelas quais as pessoas tentam regressar aos seus locais de origem.

Uma pesquisa recente da World Vision realizada com 392 crianças migrantes venezuelanas em seis países de acolhimento, revelou que uma em cada quatro crianças foi separada dos pais durante o surto de Coronavírus. 28% deles disseram estar em risco de serem despejados e um quinto disse não ter acesso a água e sabão para manter uma boa higiene durante a quarentena. Por outro lado, 63% das crianças venezuelanas entrevistadas afirmaram que não podem continuar seus estudos durante a pandemia. Entretanto, 60% percebe um aumento da xenofobia e da discriminação contra eles.

World Vision, uma organização humanitária internacional que responde à crise migratória da Venezuela e à emergência sanitária da COVID-19, adverte que o impacto econômico está levando as pessoas a fazerem escolhas desesperadas.

“A incapacidade de milhares de famílias migrantes para satisfazerem suas necessidades básicas, como parte das medidas para impedir a propagação da COVID-19 na América Latina, está resultando no regresso de muitas pessoas para suas casas”, disse Fabiano Franz, Diretor da World Vision na Resposta Multinacional à Crise Migratória Venezuelana. “Há centenas de milhares de pessoas dormindo nas fronteiras ou atravessando irregularmente, tornando as crianças extremamente vulneráveis a abusos e exploração. Sabemos que o tráfico e o abuso sexual acontecem e receamos que muitos casos não sejam detectados durante o caos da pandemia”, acrescentou Franz.

UM PANORAMA DESOLADOR 

Estima-se que sete milhões de pessoas necessitam de assistência humanitária na Venezuela e que mais de 3,6 milhões de crianças necessitam de serviços de proteção fora do país, de acordo com o plano de resposta da ONU à crise venezuelana. Isto significa um aumento de 400.000 pessoas a mais do que a proteção necessária até ao final de 2019.

“Decidimos partir porque a situação é muito difícil”, disse Noeli, uma mãe venezuelana que esperava na fronteira entre a Colômbia e a Venezuela. “Tudo o que está acontecendo com o Coronavírus e a quarentena é difícil. Estávamos ficando sem dinheiro para alugar uma moradia, por isso saímos antes de nos expulsarem”, disse a mãe, que estava dormindo na fronteira com o marido e dois bebês, tentando regressar à Venezuela apenas um ano depois de partirem para a Colômbia.

Mesmo o fornecimento de alimentos é um fardo para as famílias, já que um em cada três venezuelanos sofre de insegurança alimentar, de acordo com o Programa Alimentar Mundial.  Um relatório da ONU indica que o número de pessoas necessitadas de assistência alimentar aumentou de 208.000 para 386.000 em maio passado. Neste contexto, a World Vision prepara-se para servir mais pessoas nos seus centros de alimentação. 

O número de migrantes e refugiados venezuelanos dispersos por toda a região é de cerca de 5,5 milhões. Se a taxa de migração pré-coronavírus continuar após a reabertura das fronteiras, a crise será maior do que a crise dos refugiados sírios

“Embora milhares de migrantes estejam regressando à Venezuela, o número total de pessoas que abandonam este país continua a crescer. Os migrantes de toda a região são altamente dependentes do setor informal, que foi particularmente afetado durante a quarentena da COVID-19.  A este respeito, as pessoas precisam mais do que nunca de apoio”, afirmou Peter Gape, Diretor Nacional da World Vision Colômbia, onde vivem mais de 1,8 milhão de migrantes e refugiados venezuelanos.

Para a World Vision, a articulação com organizações locais e líderes religiosos na Venezuela e em todos os países anfitriões é fundamental para aumentar a capacidade de cumprir os compromissos assumidos para ajudar as pessoas afetadas por esta crise. As parcerias e a coordenação entre o governo, a sociedade civil, o setor privado e as agências internacionais são fundamentais para o futuro.