Débora Rakel: Foi através de muita luta que consegui provar que mulher preta e pobre também é capaz

Ela nasceu em Mossoró, um município no interior do Rio Grande do Norte.  De criança apadrinhada à estudante de universidade, viveu de perto uma infância sem oportunidades e muito sofrimento, causado pelo preconceito racial. Conheça a história da educadora Débora Rakel, uma ativista das causas da juventude negra e integrante do projeto #EuSintoNaPele do MJPOP (Monitoramento Jovem de Políticas Públicas), desenvolvido pela Visão Mundial Brasil.

“Minha história não começa de mim, ela tem início na minha mãe. Sou a filha mais velha de uma mãe de três filhos. Eu e meus irmãos fomos criados sem uma presença paterna, minha mãe sempre cuidou da gente sozinha. Antes de eu nascer, ela já passava por momento difíceis. Foi expulsa de casa porque engravidou de mim e foi condenada pela própria família e pela sociedade por ser mãe solteira.

Quando eu tinha uns 4 anos de idade, minha mãe precisava trabalhar e eu ficava com uma vizinha que tomava conta de mim, e dos 4 aos 10 anos, morei na casa dos meus tios. Foi um tempo muito difícil, eu era a única menina da casa e fazia todas as atividades domésticas sozinha. Minha infância foi roubada pelo trabalho, eu não tive bonecas e praticamente não pude brincar.

Morando com a minha mãe e cuidando do meu irmão, foi que a minha vida começou a mudar totalmente, porque conheci a Visão Mundial. Minha mãe me inscreveu no projeto e comecei a participar das atividades. Passei a sonhar com uma infância feliz, tive o direito de ser criança e não tenho vergonha de dizer que brinquei até os 14 anos, porque foi uma infância tardia. A primeira atividade que fiz no projeto foi de teatro, e sou uma das primeiras integrantes do grupo Ousadia Juvenil, que mais tarde passou a fazer parte do MJPOP.

Foi impactante conhecer a Visão Mundial porque mudou a minha vida, fez eu me reconhecer como uma pessoa de verdade. Até então eu não me reconhecia como criança negra, e isso pra mim era muito forte, por causa dos preconceitos raciais que passei a minha vida toda sofrendo, principalmente na escola. A primeira vez que tive contato com as discussões étnico-raciais foi quando participei do Fórum Social Potiguar de Crianças e Adolescentes, e a partir daí, comecei a me identificar com a causa e me interessar por ela.

Aos 15 anos, participando do grupo Mulheres em Ação da Visão Mundial, eu comecei a me destacar e surgiu a primeira oportunidade de ser voluntária no projeto. Pouco tempo depois, fiz um curso técnico de Administração muito concorrido na minha cidade e fui selecionada, porque participava da Visão Mundial. Após esse curso, surgiu minha primeira oportunidade de emprego e trabalhei numa escola como auxiliar administrativo. Lembro do primeiro salário que recebi como fruto do meu trabalho, foi muito marcante aquele dia. Ali, eu comecei a desconstruir tudo o que sempre tinha ouvido sobre racismo, e o que era reproduzido pela minha família.

Foi quando trabalhava na escola que recebi um convite da Visão Mundial para ser educadora. De criança apadrinhada, passei a contribuir profissionalmente com a mesma organização e comecei a estudar Ciências Sociais em uma universidade. É impossível contar minha história e não falar da Visão Mundial, porque sou a prova do que é uma transformação de vida. De todos os caminhos que me deram, nenhum oferecia a alternativa de ser alguém, e a Visão Mundial acreditou em mim. É por isso que eu acredito que se a juventude tiver oportunidades, ela pode transformar realidades como a minha.

Eu não quero caminhar sozinha. Quero que a juventude negra sonhe, por exemplo, com o acesso à Educação, e consiga chegar lá como eu cheguei. Eu quero ser multiplicadora do conhecimento que recebi. Foi através de muita luta que consegui obter o respeito da minha família e da sociedade e provar que mulher preta e pobre também é capaz! É dentro desse espaço de identificação que tento desconstruir o racismo. A Visão Mundial transformou minha vida para que eu possa transformar outras vidas também.”

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