Adolescentes e jovens do Monitoramento Jovem de Políticas Públicas (MJPOP) reforçam ações da Visão Mundial na resposta à pandemia de COVID-19

Com o anúncio da pandemia global de COVID-19, em março, a Visão Mundial passou a concentrar as atividades no território para responder à emergência. Nesse contexto, um grupo importante de jovens tem atuado voluntariamente em vários municípios onde a organização possui operações. O grupo é ligado ao Monitoramento Jovem de Políticas Públicas (MJPOP), uma iniciativa da Visão Mundial que prepara adolescentes e jovens para o monitoramento de políticas públicas no dia a dia das comunidades, e assim, buscar a garantia de direitos das juventudes vulneráveis.

Ao todo, são 20 Grupos do MJPOP atuando nas principais cidades onde existe a presença da Visão Mundial, sempre seguindo as recomendações de segurança e prevenção ao contágio. Segundo a articuladora nacional de Juventudes da Visão Mundial, Tatiane dos Anjos, os jovens voluntários têm concentrado ações no apoio ao monitoramento e escutas, na geração de dados e evidências, além da logística de distribuição de doações, como cestas básicas, kits de higiene e Caixas de Ternura. “No MJPOP, vemos a periferia lutando para resolver os problemas da comunidade, acionando o governo, monitorando políticas públicas. O coronavírus é apenas mais um problema, e trabalhar durante a pandemia tem nos trazido grandes lições de vida”, declara.

Ação no território

Um dos municípios com grande participação de jovens voluntários nas ações da Visão Mundial é Recife (PE). São pelo menos 30 voluntários que participam ativamente na resposta à emergência. “O envolvimento e o engajamento deles nesse momento foi muito grande. A vontade de querer ajudar e fazer alguma coisa pelo outro, mesmo com alguns deles vivendo em uma situação de vulnerabilidade, me marcou muito”, afirma Derick Coelho, articulador de juventudes da Visão Mundial no Recife. Ele também destaca a importância do comprometimento da juventude em compartilhar informação sobre medidas de proteção conta o contágio e disseminação da doença nas atividades. “Nós vimos a evolução do sentimento das famílias na entrega das doações. No primeiro mês, estavam desacreditados e não usavam máscaras, não entendiam o cenário. Hoje, as pessoas se protegem, obedecem ao distanciamento e o uso das máscaras”, comemora.

Para articuladora Tatiane dos Anjos, envolvimento da juventude é fundamental para solução de problemas nas comunidades (Foto: Gabriel Dias / Visão Mundial Brasil)

Em Salvador, o trabalho em parceria com as redes de apoio e proteção deu origem a iniciativas como a campanha “Covid na rua, criança em casa”. Realizada em parceria com a Rede de Protagonistas em Ação de Itapagipe (REPROTAI), ela leva atenção a dezenas de crianças do bairro do Uruguai e materiais que ajudam a permanecer em casa. Com a campanha, são distribuídos brinquedos para as crianças e kits de higiene pessoal para adolescentes. “A comunidade foi muito favorecida com essa parceria da Visão Mundial. Principalmente no início da pandemia, quando muita gente ainda não tinha recebido o auxílio emergencial, as doações foram super importantes e fizeram toda a diferença”, afirma Lorena, de 24 anos, moradora do Uruguai, jovem participante do MJPOP e da REPROTAI há quatro anos.

Trabalhar com as ações emergenciais tem sido uma experiência nova e marcante para a maioria dos jovens, como relata Edgleison Rodrigues, articulador de juventudes da Visão Mundial no Ceará. “Enquanto funcionário que trabalha na ponta, desde 2013 eu já sabia que a organização atuava com emergência, mas é a primeira vez que estou vendo uma ação tão específica para prover o subsídio mínimo para tantas famílias. Sinto-me privilegiado por fazer parte dessa história, nesse momento. Tem sido uma experiência muito rica e emocionante”, declara.

Para Edgleison Rodrigues, tem sido um aprendizado trabalhar na linha de frente nas ações de resposta à emergência (Foto: Analice Diniz / Visão Mundial Brasil)

Voz da juventude

No Rio de Janeiro, ações de destaque da Visão Mundial que contam com participação do MJPOP incluem monitoramento de políticas públicas e mobilização da sociedade civil. “Fazemos desde cartas de manifesto para medidas de isolamento, para não acontecer o afrouxamento, até a troca de informações sobre pontos de distribuições de alimentos e também questões de segurança pública, visto que essa é uma região muito atingida pela violência”, explica José Sérgio Sobrinho da Costa, articulador de juventudes da Visão Mundial no Rio de Janeiro. Uma importante ação que aconteceu nesse sentido foi a divulgação de uma nota pública, assinada por Visão Mundial e MJPOP, manifestando preocupação com as mortes violentas de adolescentes e jovens em ações policiais.

Para José Sérgio, é inspirador o trabalho que o MJPOP tem desenvolvido durante a pandemia. “O movimento não parou na pandemia, e os jovens conseguem também se identificar como protagonistas nas ações aqui no Rio. Não é o adulto falar o que eles têm que fazer, mas eles mesmos percebem o problema e tomam a iniciativa. Eles enxergam a comunidade e inspiram outros jovens”, conclui.

No Rio de Janeiro, jovens voluntários reforçam ações diretas nas comunidades – de distribuição de alimentos a mobilização contra a violência (Foto: Bruno Itan / Visão Mundial Brasil)

Desde o início da pandemia, jovens e adolescentes do MJPOP também estiveram envolvidos na geração de dados e evidências, por meio de duas pesquisas nacionais sobre as percepções da juventude sobre a COVID-19 e os impactos no dia a dia familiar e das suas comunidades. A primeira foi realizada em março e conduzida por jovens de 16 a 24 anos do MJPOP, que entrevistaram 270 pessoas em 24 cidades dos estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Pernambuco, Rio de Janeiro e Rio Grande do Norte. A pesquisa contempla questões relacionadas ao saneamento básico (disponibilidade de água potável, rede de esgotos e coleta de lixo), saúde e a compreensão de moradores de comunidades sobre a COVID-19. A maior parte dos entrevistados (82%) foi de pessoas jovens com idade entre 15 e 29 anos.

A segunda pesquisa foi realizada em maio, em parceria com o Conselho Nacional de Juventudes (CONJUVE), Em Movimento, Fundação Roberto Marinho, Mapa Educação, Porvir, Rede Conhecimento Social e Unesco e Visão Mundial. O levantamento Juventudes e a Pandemia do Coronavírus ouviu 33 mil jovens de 15 a 29 anos de todo o Brasil por meio de um questionário disponibilizado pela internet. A pesquisa questionou jovens em relação a quatro temas – economia, saúde e bem-estar, educação, e perspectivas para o futuro – e em todos eles a instabilidade está presente de alguma forma.

Segundo Derick Coelho, que também representa o MJPOP no CONJUVE, o principal desafio foi chegar na juventude em tempos de pandemia, já que poucos têm acesso à internet. “No Brasil, a internet é um filtro muito grande, mas fomos surpreendidos porque conseguimos chegar nesses 33 mil”, comenta. Para realizar essa pesquisa, organizou-se uma rede de apoio de jovens voluntários, que contou com a participação direta de três integrantes do MJPOP – no Rio Grande do Norte, em Pernambuco e no Rio de Janeiro. “O engajamento dos jovens para construir o questionário foi muito importante, porque eles não só responderam, mas também fizeram parte da construção da pesquisa”, afirma.

Em Recife, ação de jovens e adolescentes tem sido fundamental para conscientizar sobre importância de medidas de proteção (Foto: Thaís Simões / Visão Mundial Brasil)

Sobre o MJPOP

O MJPOP é uma metodologia para monitoramento de políticas públicas e serviços públicos (saúde, educação, esporte, lazer e segurança pública cidadã) da Visão Mundial Brasil que prepara adolescentes e jovens para liderar processos políticos em suas comunidades, e assim, garantir a efetivação desses direitos através de reuniões comunitárias, conversas com poder público, entre outras ações.

Por meio dessa metodologia, adolescentes e jovens de 16 a 24 anos identificam os problemas de suas regiões, e junto com outros atores, propõem soluções. Os participantes do MJPOP aprendem temas relacionados ao funcionamento do Estado e como se configuram as políticas públicas e os serviços públicos. Assim, conseguem entender os desafios locais dentro de um contexto mais amplo, identificando as responsabilidades de cada um no processo de construção de soluções coletivas e sabendo de quem cobrar as mudanças necessárias.

Atualmente, o MJPOP tem ações em cidades dos estados de Ceará, Pernambuco, Alagoas, São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Rio Grande do Norte. Ao todo são 532 jovens e adolescentes constantemente promovendo o diálogo entre comunidades e governos, principalmente nos municípios, para resolver problemas que afetam toda a sociedade.

Texto: Ana Luz / Visão Mundial Brasil